TECNOMAGIA I: Intervenção no Fluxo da Realidade


Tempos conflitantes, momento de tomada de posição. Com a crise econômica mundial, aumentaram as medidas governamentais de exploração ambiental e manipulação civil. As trocas de dados pela internet sofrem duros ataques em nome de interesses protecionistas, distorcendo qualquer inteligência a respeito dos direitos autorais e do que é ou não “pirataria”. Os mesmos interesses que desejam a implementação do A.C.T.A. e do S.O.P.A. (duas medidas de controle de dados circulando pela internet), ironicamente, são os mesmos que influem na desestruturação sócio-econômica da enfraquecida Grécia, na implementação de represas na bacia amazônica e o despejo de moradores de áreas de projeto urbanístico para os jogos olimpicos e a Copa do Mundo. O que tem haver esse contexto de pior da globalização com o conceito de “tecnomagia”?Manifestação contra o controle na internet: pirataria contra corsários globalizados
Ao pensarmos os “tecnomagos” como agentes “sensores/atuadores” da realidade social e global, o papel desse personagem é atemporal e sem fronteiras. Deslocando a questão religiosa para segundo plano, o papel dos magos, xamãs, alquimistas e outros vultos farsescos na história da humanidade, este caminhava entre o mensageiro do mundo invisível ou plano mágico/místico com a de manipulador da realidade cotidiana. O papel desse personagem não estava agregado, historicamente a questão econômica, salvo a participação nos ritos de prosperidade da colheita, fertilidade, caça e guerra. A questão é que o mago e todos os seus alteronomios não estavam responsáveis por produzir nada além da comunicação com o mundo sobrenatural. O charlatanismo como anacrônico sinônimo de farsa ideológica que gera benefícios econômicos ao agente charlatão, mas por outras dinâmicas sociais que não aquelas do mago. Talvez seja por isso que em muitas comunidades tribais, o xamã é escolhido e não autoproclamado. O mito dos alquimistas também gerava a cobiça de aventureiros que sonhavam com o segredo da transformação do metal vil em metal nobre, questão recorrente nas obras alquímicas. O ato mágico está além da instrumentalidade político-financeira, mesmo que este interfira no mecanismo de legitimação de tal instrumental. Não é no plano econômico que encontramos o ambiente de operação mais fértil para a (tecno)magia, mas ela pode interferir no andamento das transações com sua operação de ressignificação poético-mágica quando se menos espera.
O mago/xamã/alquimista/curandeiro/etc. vive em sociedade, mas vive no “entre sociedades”. Ele lida com os códigos do mundo civilizado, legitimado, validado como tal, mas também é atuante em um mundo marginal, proibido, deixado fora dos interesses sóciais, políticos e econômicos da maioria constituída de seu clã, tribo, vilarejo, cidade, país. É presente no mundo das ervas venenosas e curativas, dos animais peçonhentos, dos demais banidos pelo sistema, das grutas, dos pântanos e das cachoeiras, enfim, da margem. Essa dinâmica entre um conhecimento de contracultura e a manutenção da saúde e do empoderamento dos indivíduos em sociedade, uma dupla atribuição capaz de fazer deste complexo personagem uma questão de difícil apreensão pelos mecanismos de controle. A questão está além da rivalidade entre credo oficial e práticas proibitvas. Por outro lado, podemos concluir que uma sociedade cuja política de controle social e econômica apele para a marginalização das práticas dessa natureza, fortalecendo assim a imagem de agente de resistência e poder rivalizador do status quo, reequilibrando as forças atuantes na realidade constituida, onde o “Humano” vê-se confrontado pelo agente da iconoclastia maior que ele, podendo ser a representação da “Natureza” na figura desse “mago/charlatão”.
Se sobrepomos aquelas figuras vultuosas do passado, eliminando o conceito institucionalizado de ideologias operantes, com as ações de agentes ativistas dos nossos dias, encontraremos uma revisitação desses mitos que passa antes pela imagem da guerrilha. Essa imagem foi recorrente no mundo colonizado, manifestando-se no levante de lideres guerreiros com poderes sobrenaturais no Haití (dentre eles o lider da independência haitiana, Toussaint L’Ouverture), nos temidos Thugs da Índia, na força imortal que tem Zumbí dos Palmares para todo quilombola que o invoca, na pajelança e a caboclada em sua história de resitência aos portugueses e sua cooptação por esse último.

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Sobre dasprofundasaguas

Mergulho no inominável dos meus afetos, nos meus ritos sem liturgia...minha magia, enfim. Volto com a cabeça marcada das lâminas do Tempo, multiplos fios que me desdobram num ser ubiquo: alí, aqui e em todo lugar.

Publicado em maio 20, 2012, em Teconamagia e ativismo. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Texto excelente.beijossssssss..adorei rever vc…..

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